Silvestre Alves

30/05/2013 23:05

Tropas e Tropeiros

Silvestre Alves Gomes


 

TROPAS E TROPEIROS

Autor: Silvestre Alves Gomes

Podemos considerar como Tropeiros, nos séculos XVIII e XIX no Brasil, os homens que negociavam ou conduziam tropas de animais de carga ou xucros. Os tropeiros donos de tropas, nem sempre conduziam animais, esses cuidavam mais de negócios e, portanto, delegavam a missão de conduzir a tropa àqueles que mereciam confiança, tinham habilidade com os animais e conheciam os caminhos do sertão. Os tropeiros donos de tropas eram pessoas de grande prestígio e geralmente de bom poder econômico. Eram bem informados e logo perceberam as necessidades dos povoados que cresciam aumentando a demanda de mercadorias e principalmente meio de transporte. Esses homens foram, portanto, empreendedores que tiveram visão de mercado. A esses tropeiros negociadores aliaram-se os tropeiros condutores e peões de lida, homens destemidos e determinados no desafio de desbravar regiões selvagens, a fim de determinar as rotas pelas quais se fez o deslocamento do gado alçado dos criatórios dos campos do sul da América Latina para São Paulo. Nesse Estado, principalmente em Sorocaba, aconteciam inúmeras feiras de animais. Tropeiros vindos de outras regiões, ao norte ou a oeste brasileiros, nessas feiras, negociavam lotes de animais e os levavam para utilizá-los, principalmente como meio de transporte. Nesse vai e vem pelos sertões, em cada pouso que faziam, os tropeiros fizeram nascer povoados que, com o tempo, evoluíram para cidades. Os tropeiros conduziam tropas de bovinos, equinos, suínos... Mas a tropa mais valiosa era, sem dúvida, a de mulas e burros (muares) que vinham do sul, pelo Real Caminho do Viamão. Nessas tropas, a mercadoria mais preciosa eram os próprios animais.

Se considerarmos a natureza do tropeirismo praticado em São Paulo, Rio de Janeiro e em Minas Gerais, por exemplo, onde predominavam tropas cargueiras e, portanto de animais domados e treinados para transportar mercadorias sobre o lombo, deduz-se que a atividade tropeira nesses Estados, comparadas com a praticada ao longo dos caminhos do sul, não era exatamente a mesma, pois nesta, predominava a condução de tropa de animais xucros. Outro dado precisa ser considerado para distinguir as diferenças entre tropas e atividades tropeiras: o número de animais que compunham a tropa vinda do sul chegava a ter mais de mil animais, número inviável para uma tropa cargueira, face aos caminhos íngremes e estreitos por onde os cargueiros andavam. Na atividade tropeira de transporte, o tropeiro condutor, geralmente puxava, a pé, um pequeno lote de animais. Para essa atividade tinha habilidades e responsabilidade. Na atividade com tropa xucra, certamente que outras habilidades eram requeridas dos peões tropeiros, para capturar animais fujões, ou evitar a arribada, isto é, a fuga de animais que se desgarravam da  tropa.

Na comitiva tropeira havia uma hierarquia: o Tropeiro era o líder que tinha como companheiro leal o arreador (homem que cuidava da tralha da tropa cargueira), muita consideração tinha também pelo ferrador (que cuidava das ferraduras dos animais e também dos animais feridos ou doentes); pelo cozinheiro ou menino madrinheiro; pelos peões condutores da tropa arreada; pelos arribadores (peões laçadores), domadores, rebatedores e culatreiros da tropa xucra. Não existe um número preciso de integrantes de uma comitiva tropeira, isso era acertado conforme o número de animais da tropa e a experiência ou habilidade dos integrantes da comitiva tropeira. A atividade tropeira era de natureza comercial e pacífica e os integrantes das comitivas precisavam ser solidários uns com os outros para o êxito da empreitada. Nesse contexto foi documentada a presença de homens brancos, negros, mestiços, e raramente mulheres, entre os quais a interdependência e mútuo compromisso de preservar e conduzir bem a tropa afastava o preconceito e gerava o companheirismo. O que mais valia era a integridade de cada indivíduo. A fundamentação desses valores e sentimentos está nos extravasamentos de relatos de tropeiros ainda vivos, ou testemunhos de pessoas que com os tropeiros conviveram. Por mais de duzentos anos, os tropeiros fizeram o intercâmbio cultural e participaram efetivamente da ocupação de espaços, alargando fronteiras e disseminando costumes que hoje estão integrados à identidade do povo brasileiro.

Em 01/01/2013

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